
Este é o Buiú. Rodrigo Antônio dos Santos Freitas, 24 anos, cruzeirense. Morador de rua desde os 8 anos de idade, quando saiu de casa para ser livre. “A educação que tenho foi a rua quem me deu", ele diz. Mas a rua também tomou uma parte dele. Após ser atropelado por um ônibus, Buiú perdeu o braço direito. Mas nem por isso se endireitou. Nunca voltou pra casa. E é na rua Adolfo Lippi Fonseca, em frente à porta do centro de treinamento do Cruzeiro, que o encontramos, sempre que vamos trabalhar lá.
Tudo começou em 91. O garoto gozava da liberdade recém adquirida: dormia em garagens de ônibus e vagava com a turma de amigos pela cidade. Um dia, em uma de suas andanças, foi parar na orla da Lagoa da Pampulha. Ao passar pelo número 7.100, onde na época funcionava a Toca da Raposa (hoje conhecida como Toca 1), tomou uma decisão que mudaria a sua vida.
Como a maioria das crianças, Buiú era fã incondicional do Ronaldinho, então atleta do Cruzeiro. Seu maior sonho era conhecer o jogador. E ele estava disposto a tudo para tornar seu desejo realidade. Aí começou a ficar no portão da Toca, diariamente, pentelhando os seguranças. Pediu e insistiu tanto, que conseguiu. O encontro com seu grande ídolo não foi registrado em fotografia, mas ficou marcado nele para sempre. Depois do triunfo, ele ficou importante aos olhos dos outros garotos de rua. Pela primeira vez se sentiu alguém.
Desde então, passou a frequentar a porta do Cruzeiro. Como um funcionário a serviço da empresa, ele cumpre, religiosamente, sua carga horária diária, do lado de fora do clube. São horas à espera de um minuto de atenção de algum dirigente ou jogador de futebol. Enquanto isso, ele auxilia os porteiros, organizando as filas de visitantes, ajudando os motoristas a estacionarem seus veículos e até avisando aos jornalistas o momento certo de entrarem. Se tornou conhecido e é recompensado por todos. Na hora do almoço, ganha um prato de comida. Vira e mexe recebe um trocado e, às vezes, até presente: “Esse tênis foi o Maluf que me deu!“, conta orgulhoso. “Por que?”, pergunto. “Porque eu faço presença, tenho carinho e amor pelo Cruzeiro”.
Depois de 9 anos “a trabalho pelo Cruzeiro“, coleciona nomes na lembrança como se fossem títulos de futebol: “Levir Culpi, Carlos Alberto Silva, Bentinho, Diney, Nonato, Célio Lúcio, Vanderlei Luxemburgo...” são alguns dos que já lhe deram cestas básicas e roupas.
Em 2003, foi homenageado pelo lateral Maurinho, que comemorou um gol escondendo o braço direito dentro da camisa. Este ano, recebeu ajuda financeira de outros 2 jogadores para alugar um barracão para morar.
Após o “expediente“, nas horas vagas, Buiú ainda ataca de centro avante no time dos deficientes do bairro Cachoeirinha. “Costumo fazer gols!”, diz satisfeito e sorridente.
E é assim que quase sempre o vemos: sorrindo e querendo ajudar. Claro que às vezes ele extrapola um pouquinho.. (como no dia em que estendeu as roupas lavadas na calçada da Toca, como se fosse o varal de casa...). Mas a gafe é perdoável , já que ali é, realmente, a casa dele. E quando, por ventura, não o encontramos lá, sentimos a falta dele!